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Vitória democrata acende alerta para data centers e IA

Bancos temem ofensiva regulatória nos EUA; Goldman Sachs estima que cerca de 45% da capacidade de expansão planejada no país seja afetada

Publicado em 06/11/2026 22h53 · Por

Bancos temem ofensiva regulatória nos EUA; Goldman Sachs estima que cerca de 45% da capacidade de expansão planejada no país seja afetada

Um dia depois da reação positiva, o resultado eleitoral passou a alimentar outra preocupação em Wall Street: o risco de uma ofensiva regulatória contra a expansão dos data centers e da infraestrutura necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial (IA).

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O receio ganhou força na quinta-feira (5), quando as bolsas de Nova York registraram fortes perdas, lideradas pelas empresas de tecnologia. O Nasdaq despencou 5,52%, entrando em território de correção, enquanto o S&P 500 recuou 4,36% e o Dow Jones caiu 3,44%. A onda de vendas também atingiu outros mercados, incluindo a Bolsa brasileira, que fechou em baixa de 0,82%.

A mudança de humor ocorreu depois de uma sessão de fortes ganhos na quarta-feira, 4. Naquele dia, o avanço democrata, chamado de "onda azul", impulsionou os índices americanos: o Dow Jones subiu 3,03%, o S&P 500 avançou 1,58% e o Nasdaq ganhou 1,44%. No Brasil, o Ibovespa interrompeu uma sequência de seis pregões de queda e avançou 1,23%, aos 167.563 pontos.

A avaliação inicial era de que a nova configuração do Congresso poderia dificultar iniciativas unilaterais de Trump e trazer maior previsibilidade à condução da política econômica. O problema, na avaliação dos investidores, é que o resultado também fortaleceu políticos que fizeram campanha defendendo regras mais rigorosas para os data centers, empreendimentos que se tornaram fundamentais para a expansão da IA.

A preocupação não é necessariamente com a aprovação de uma lei federal que impeça a construção dessas instalações. O risco mais imediato está nos governos estaduais e municipais, que têm poder para interferir no licenciamento dos projetos, estabelecer exigências ambientais e energéticas e até suspender temporariamente novas construções.

Em relatório sobre o resultado eleitoral, o Goldman Sachs chama a atenção justamente para essa diferença entre as esferas de governo. "No âmbito federal, o resultado tem menor probabilidade de alterar as perspectivas para a regulação de centros de dados e da inteligência artificial (IA), que ainda dependeria de apoio bipartidário para ser aprovada no Senado e superar um eventual veto presidencial", avalia o banco.

Já nos níveis estadual e municipal, a expectativa é de mudanças mais concretas. O Goldman estima que as vitórias democratas podem levar à adoção de moratórias temporárias para a construção de centros de dados, afetando aproximadamente 45% da expansão planejada da capacidade desses empreendimentos nos Estados Unidos. Apenas o Texas responde por cerca de 25% desse total.

O Texas é um dos principais focos de atenção dos investidores. A democrata Gina Hinojosa venceu a disputa pelo governo estadual, depois de fazer campanha com propostas para restringir a expansão dos centros de dados. Os democratas também conquistaram uma vaga na Comissão Ferroviária do Texas, órgão estadual envolvido na regulação de atividades relacionadas à energia.

Segundo análise do UBS BB, Hinojosa terá controle executivo e administrativo sobre as agências estaduais, o que lhe permitirá emitir determinações para suspender ou desacelerar processos de licenciamento e análise de instalações que aguardam aprovação.

A possibilidade de tornar essas restrições permanentes, porém, enfrenta um obstáculo político: os republicanos continuam controlando o Legislativo estadual. Para transformar eventuais medidas temporárias em regras definitivas, será necessária a aprovação de uma legislação.

Ainda assim, a combinação entre o resultado eleitoral e a insatisfação de parte da população com a expansão desses empreendimentos pode abrir espaço para mudanças.

O Goldman Sachs também destaca as vitórias democratas nos governos do Texas, da Geórgia e de Michigan, estados nos quais os novos governadores podem adotar moratórias condicionais, suspendendo novos projetos até a aprovação de regras mais restritivas.

Entre as medidas em discussão estão a eliminação de determinados incentivos fiscais, o endurecimento das exigências ambientais e a criação de regras mais rigorosas para o consumo de eletricidade e água. Também poderia haver maior facilidade para que governos municipais estabeleçam suas próprias moratórias.

O impacto potencial é relevante porque esses estados concentram uma parcela expressiva dos investimentos planejados para a construção de novos data centers. Na estimativa do Goldman Sachs, as regiões em que os democratas provavelmente ampliarão as restrições representam aproximadamente 45% da capacidade de expansão prevista para os Estados Unidos.

O movimento, contudo, não começou com as eleições. A resistência à instalação de novos empreendimentos já vinha crescendo entre comunidades locais, principalmente por causa da demanda elevada por recursos naturais e dos possíveis efeitos sobre as contas de energia.

De acordo com dados citados pelo UBS BB, desde janeiro de 2013, governos locais anunciaram 529 moratórias sobre a construção de data centers, com forte aceleração em 2026. No momento da elaboração do relatório, dibvulgado nesta semana, 415 dessas restrições continuavam em vigor.

Um dos principais pontos de atrito é a distribuição dos custos da expansão dos data centers. Essas instalações demandam grandes volumes de eletricidade, tanto para alimentar os equipamentos que processam informações quanto para manter os sistemas de refrigeração em funcionamento.

O temor é que a necessidade de ampliar a geração e a transmissão de energia para atender aos novos empreendimentos acabe sendo repassada aos demais consumidores, pressionando as contas de luz de famílias e empresas.

Essa discussão já chegou ao Congresso americano. Um exemplo é o Ratepayer Protection Act, projeto que prevê que reguladores estaduais de serviços públicos e concessionárias considerem regras para que grandes consumidores, como os centros de dados, arquem com os custos adicionais de geração e transmissão de eletricidade e das melhorias necessárias na rede.

A proposta foi aprovada com ampla maioria na Câmara dos Representantes, por 417 votos a 3, mas não conseguiu alcançar os 60 votos necessários no Senado. O texto recebeu 57 votos favoráveis e 43 contrários. Senadores democratas defendiam mecanismos mais rigorosos de fiscalização.

Para o UBS BB, a discussão pode ganhar força com a nova composição do Congresso. O banco destaca que propostas alternativas poderiam exigir que os centros de dados paguem pelas melhorias na rede elétrica, divulguem seu consumo de recursos e forneçam sua própria energia, inclusive recorrendo a fontes renováveis.

A questão também envolve o uso da água e as exigências ambientais para a instalação dos empreendimentos. No Texas, por exemplo, uma das prioridades da nova administração estadual é rever incentivos fiscais e tornar mais rigorosas as condições para a expansão dessas estruturas.

O Goldman Sachs avalia que as moratórias temporárias podem ser uma das primeiras consequências das mudanças políticas nos estados. O banco ressalta, porém, que os centros de dados não estiveram entre as principais prioridades dos eleitores na eleição e que, por isso, as restrições podem perder força nos próximos meses.

Os data centers são uma peça central do ciclo de investimentos em inteligência artificial. São essas instalações que abrigam os servidores, processadores e equipamentos necessários tanto para treinar modelos de IA quanto para executar as aplicações utilizadas por empresas e consumidores.

Fonte: SBTNews (reprodução autorizada mediante citação da fonte).

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