O crescimento econômico de Ponta Grossa tem ampliado a demanda por profissionais qualificados em diferentes setores. Com uma economia marcada pela presença de indústrias, empresas de logística, comércio e serviços, o município enfrenta o desafio de preparar trabalhadores para acompanhar as transformações do mercado de trabalho. Nesse cenário, a formação profissional ganha importância especialmente entre os jovens que buscam a primeira oportunidade de emprego.
Segundo a secretária municipal de Indústria, Comércio e Qualificação Profissional, Tônia Mansani, o município vive um momento de expansão econômica. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentados pela Secretaria, o Produto Interno Bruto (PIB) de Ponta Grossa passou de R$ 19,4 bilhões em 2021 para R$ 25,5 bilhões em 2023, crescimento de 31% em dois anos.
Para Tônia, a expansão também evidencia a necessidade de preparar profissionais para as vagas disponíveis. "As empresas abrem vagas, mas muitas vezes têm dificuldade para encontrar profissionais com o conhecimento técnico que a função exige. O mercado pede pessoas preparadas tanto do ponto de vista técnico quanto comportamental, com responsabilidade, capacidade de adaptação e disposição para aprender", afirma.
A indústria é um dos setores que mais demandam mão de obra especializada no município. Levantamentos apresentados pelo Núcleo das Indústrias de Ponta Grossa (30+ NDI) apontam necessidades de capacitação em mecânica industrial, usinagem, manutenção e automação. Entre as formações prioritárias estão tornearia geral, usinagem CNC, ajustagem mecânica, metrologia, manutenção pneumática e hidráulica, programação de controladores lógicos programáveis (CLPs) e automação industrial.
A secretária destaca que a aproximação entre empresas e instituições de ensino é fundamental para direcionar a oferta de cursos às necessidades locais. "Nosso papel tem duas frentes: ofertamos cursos gratuitos por meio do Qualifica+ e, ao mesmo tempo, articulamos com as instituições de formação profissional, que têm estrutura e recursos para atender essas demandas, para que os cursos estejam conectados ao que as empresas realmente precisam", explica.
Em 2026, o programa Qualifica+ registrou, até setembro, 36 turmas de cursos gratuitos, com 632 vagas ofertadas e 296 pessoas formadas. As capacitações são realizadas em parceria com instituições como SENAI, SESI, SEST/SENAT, SOS e outras entidades.
Na avaliação de Micheli Schopchaki Kapp, representante do NDI +30 da Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (Acipg) e ligada à empresa Águia Sistemas, que atua nos segmentos metalúrgico e de intralogística, os jovens que concluem cursos profissionalizantes chegam ao mercado de trabalho com vantagens em relação àqueles que possuem apenas a formação regular do Ensino Médio.
Segundo Micheli, estudantes que passam por instituições de formação técnica, como Senai e Instituto Federal do Paraná (IFPR), costumam apresentar maior familiaridade com a rotina industrial, normas de segurança e processos de trabalho.
"A vantagem é gigantesca. Um candidato com formação técnica, como Mecânica, Eletromecânica ou Logística, já possui familiaridade com o vocabulário do setor, entende normas de segurança e ferramentas básicas. Para a Águia Sistemas, isso significa uma curva de aprendizado muito mais rápida e menor tempo de treinamento básico, o que o coloca à frente de candidatos apenas com o Ensino Médio", destaca.
Apesar dos avanços na formação profissional, ainda existem lacunas que precisam ser consideradas. Micheli aponta que os jovens apresentam facilidade para lidar com tecnologias e sistemas digitais, mas podem enfrentar dificuldades em conhecimentos matemáticos aplicados, leitura de desenhos técnicos e metrologia. As habilidades comportamentais também aparecem como um desafio.
"Os jovens estão chegando com extrema facilidade para lidar com novas tecnologias e sistemas digitais, o que é um ponto forte. Porém, as lacunas mais sensíveis estão nas habilidades matemáticas aplicadas, como trigonometria para leitura de desenho técnico e metrologia, e, principalmente, nas chamadas soft skills (habilidades comportamentais)", avalia.
Entre as competências valorizadas pelas empresas estão comprometimento com a segurança do trabalho, trabalho em equipe, proatividade, pontualidade e inteligência emocional. Na parte técnica, destacam-se conhecimentos em desenho técnico, metrologia, processos de fabricação, eletromecânica e raciocínio lógico-matemático.
A entrada no mercado de trabalho também exige que os jovens desenvolvam habilidades que vão além do conhecimento adquirido em sala de aula. Para Micheli, uma das dificuldades observadas pelas empresas está no alinhamento de expectativas dos profissionais em início de carreira, especialmente em relação ao tempo necessário para conquistar novas funções e evoluir profissionalmente.
Ela também menciona dificuldades de comunicação interpessoal e concentração, competências importantes em ambientes industriais, nos quais a atenção está diretamente relacionada à segurança e à qualidade dos processos.
Por outro lado, a representante empresarial ressalta que a falta de experiência não precisa ser um impedimento para a contratação. A disposição para aprender e a postura durante os processos seletivos podem fazer diferença.
"Na Águia Sistemas, costumamos dizer que a técnica nós podemos ensinar, mas o comportamento vem com o indivíduo. Um jovem sem experiência prévia, mas que demonstra curiosidade, faz perguntas, chega no horário, respeita os colegas e demonstra brilho nos olhos durante a entrevista, tem altíssimas chances de contratação", afirma.
Entre as áreas com oportunidades para profissionais recém-formados em Ponta Grossa estão a indústria metalmecânica, a indústria alimentícia, o agronegócio, o setor de embalagens e a logística e transporte. Entretanto, Micheli aponta dificuldades para encontrar jovens qualificados em funções específicas, como operadores de máquinas CNC, soldadores especializados, projetistas mecânicos com domínio de softwares 3D e técnicos em automação industrial.
Nesse contexto, programas de aprendizagem e estágio técnico são considerados importantes ferramentas de aproximação entre estudantes e empresas. "São a porta de entrada mais segura e eficiente tanto para a empresa quanto para o jovem", afirma Micheli. Segundo ela, essas iniciativas permitem que os estudantes conheçam a cultura e os processos das organizações, enquanto aprendem com profissionais mais experientes.
Para Tônia Mansani, a formação profissional, ainda durante o Ensino Médio, pode ampliar as possibilidades de escolha dos jovens e facilitar a entrada no mercado de trabalho. O contato com uma área técnica também permite conhecer diferentes profissões e identificar aptidões.
"É fundamental, porque permite que o jovem conclua o Ensino Médio já com conhecimentos e habilidades que facilitam sua entrada no mercado. Muitos terminam a escola sem saber qual profissão seguir. O contato com uma formação técnica ajuda a descobrir aptidões e amplia as escolhas", afirma.
A secretária também defende uma aproximação maior entre escolas, instituições de formação profissional e setor produtivo. Na avaliação dela, preparar os jovens para as oportunidades existentes no município pode contribuir para que permaneçam na região e construam suas carreiras em Ponta Grossa.
"Nosso objetivo é que o jovem possa estudar, se qualificar e encontrar trabalho ou empreender aqui mesmo, em Ponta Grossa, sem precisar sair da cidade para construir sua trajetória. Uma cidade que cresce como a nossa precisa reter os seus talentos", ressalta.
A qualificação profissional, portanto, representa um desafio compartilhado entre poder público, instituições de ensino e empresas. Enquanto a educação precisa acompanhar as transformações tecnológicas e as demandas dos setores produtivos, o empresariado também tem papel importante na abertura de oportunidades de aprendizagem, estágio e primeiro emprego.
A construção dessa conexão pode ampliar as possibilidades de inserção profissional dos jovens e, ao mesmo tempo, fortalecer a economia de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, garantindo que o crescimento regional seja acompanhado pela formação de trabalhadores preparados para as novas demandas do mercado.
Fonte: A Rede (reprodução autorizada mediante citação da fonte).

